“Burn the Witch”: quem são as bruxas de 2017?

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“As bruxas são muito aterrorizantes.”

Foi o que disse uma das crianças que compõem o corpo da UVE, tendo apenas 4 ou 5 anos de idade. Desde já e assim como nós, ensinada a pensar em figuras medonhas que despertam sua fértil imaginação de modo não saudável. Parece fazer parte da nossa cultura o ato de criar estereótipos demoníacos para tudo aquilo que não nos agrada, o que resvala em uma perigosa polarização, no melhor estilo maniqueísta, de um bem que para nós é o moral e o normal, e de um mal que de alguma forma nos causa estranheza e repulsa.

Porém, engana-se quem supõe que essas questões provém das mentes infantis. Na realidade, falar da demonização de pessoas e coisas é tocar numa problemática inevitavelmente adulta. A relevância dessa diferenciação reside justamente no fato de compreendermos que o “infantil” que costumamos considerar como inferior, diminuto por demasiado perante nossas brilhantes cabeças, talvez esteja anos luz à nossa frente em vários aspectos. Se é dos mais velhos que elas aprendem que a bruxa é aliada a Lúcifer e irá lhes fazer algum mal, pode ser que tenha algo muito errado no topo dessa cadeia hierárquica geracional.

Anos e mais anos de história nos permitem perceber que em diversos momentos houve um grupo, a possuir membros com  uma ou mais características em comum, que foi posto à margem da sociedade dita “normal”. A canção “Burn The Witch” (em português, “queime a bruxa”), da banda inglesa Radiohead, remonta a um período notadamente marcado pela perseguição, por parte de seguidores do cristianismo, às famigeradas bruxas. Não cabe aqui aprofundar sobre quais motivos ensejaram tais barbaridades mas o fato é que, mesmo no século XXI, aspectos que se viam à época da inquisição perduram no que tange à demonização de pessoas.

“Stay in the shadows

Cheer at the gallows

This is a round up”

Quantas são as reportagens de pessoas LGBTs agredidas física e verbalmente em razão de aspectos subjetivos que não deveriam dizer respeito a mais ninguém senão a elas mesmas? Quantas mulheres vítimas de um machismo que não dá sinais de que irá acabar? Podemos pensar ainda no nosso próprio sistema penal brasileiro que é notoriamente carregado de uma seletividade que não se orienta na punição de crimes cometidos, mas na punição de indivíduos que, por motivos de raça ou classe social, vêem-se mais vulneráveis à ação repressiva do Estado. Tudo isso possui em comum o ato de determinarmos, através de algum senso de moralidade que em algum momento deu muito errado, quais as pessoas boas e quais as pessoas más. Ou mesmo quem são os fortes e quem são os fracos.

Isso implica na trituração de subjetividades e liberdades individuais que causam, grande parte das vezes, recolhimento e medo. É o receio de ser espancado ou assassinado que faz com que tantas LGBTs não queiram andar de mãos dadas com suas/seus companheiras/os pelas ruas. Algo muito simples mas demasiadamente cheio de significados. No âmbito do projeto UVE, essa reflexão acerca da marginalização de indivíduos se faz pertinente, tendo em vista a pluralidade existente entre orientadoras/es e crianças. Pluralidade esta que, apesar de ser importante, também escancara um mar de desigualdades e nos faz questionar até que ponto é possível nos dizermos horizontais frente a relações intrinsecamente verticais.

Neste sentido, vemos que as bruxas não são questão superada. A bruxaria paira solta pelo ar e o que não falta é gente preparada para combatê-la. Infelizmente, muitas “Genis” ainda serão perseguidas aos gritos de “burn the witch”, enquanto tentam se esconder nas sombras de um espetáculo nos qual elas são protagonistas, mas que o final é uma tragédia.

Texto de Bruno Almeida, atual membro da Assessoria de Comunicação.

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A extensão como a força motriz para o crescimento pessoal de um universitário

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Sou nascido e criado em Salvador, na periferia da cidade baixa, e isso por si só faz com que eu sinta que minha realidade está bem mais próxima das crianças e dos moradores do Itapoã do que dos meus colegas de Faculdade. Adicione o fato de eu ser negro, o que me põe novamente mais próximo da população do Itapoã (que é composta expressivamente por pessoas negras) do que das pessoas da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília.

Lembro da minha primeira semana  de aula, foi num passado recentemente (em março de 2015) e de como tive o chão  sob os meus pés tirado de mim. Eu percebo hoje que eu idealizei muito o Direito durante meus anos de escola e quando me deparei com a realidade, a expectativa se desfez perante meus olhos. Não me entenda mal, eu gosto do curso e reconheço que tem coisas nele que eu amo, mas demorei a começar a me sentir parte daquele espaço (um exercício diário que faço até hoje, eu diria). Sempre tive muitos problemas em me inserir em novos espaços, a isso atribuo grande parcela de culpa ao ambiente apático de Brasília que fez com que eu fosse me tornando uma pessoa introvertida.  Por conta disso, eu pensei em desistir do curso no começo, apesar de ser um sonho que um nutria desde o meu ensino fundamental.

Nisso surgiu uma das salvadoras, até o momento, da minha graduação: a extensão. Tive meu primeiro contato na ida ao Núcleo de Prática Jurídica (NPJ)[1] e antes mesmo de chegar ao local, a caminho dele (no ônibus) questionava a membras da UVE (Universitários Vão à Escola) e de outros projetos de extensão sobre o que os respectivos projetos faziam. Era um calouro que de tão curioso, se tornava chato. No NPJ houve a tradicional roda de conversa com calouros/as e representantes dos projetos para discutir extensão. Nunca havia escutado falar nessa palavra com o sentido que lhe é conferido dentro da academia e, assim, pouco participei da discussão. Contudo, consegui aprender tanto no pouco tempo que estive naquela sala. Saí de lá decidido a me juntar a dois projetos e um deles era a UVE, tudo que bastava para ingressar era a vontade e um fim de semana livre para poder participar da formação.

Juntar-me à UVE foi uma das melhores coisas que eu poderia ter feito nesses 2 anos de curso. Simultaneamente ao ingresso em coletivos e espaços negros, está sendo o que faz minha graduação ter sentido. A experiência vívida de ir ao Itapoã  toda semana e estar com as crianças depois de um semana cansativa, faz com eu tire forças de locais inimagináveis, porque eu sei que vale a pena e me faz bem ir à Horta Comunitária.

A experiência universitária pode ser muito árdua, monótona, além de carecer de alguns elementos que a torne completa quando resumida a sala de aula.  Minhas vivências extraclasse são responsáveis não apenas por minha formação como um futuro bom profissional, mas também caracterizam um processo recorrente de erros e acertos que visam desenvolver igualmente uma formação enquanto pessoa.

A extensão pode ter muitos sentidos, algumas vezes é vista como sinônimo de resistência, outras como a área mais desprezada do tripé universitário (hoje, um fato incontestável), mas pra mim, sobretudo, é refúgio. Em meio a uma academia que prioriza a produção acima de tudo, ter um ambiente em que a experiência/vivência tem papel de destaque é gratificante. Isso porque, dentre outros motivos, o povo negro é moldado pelas vivências.  Ao longo da nossa história não (ou pouco) pudemos nos servir da academia como uma aliada a nível de dar valor e importância devidos a assuntos que nos concerniam.  Com o ingresso maior de estudantes negros nas universidades neste século, essa realidade – espero – tende a mudar.

Na extensão eu encontrei meu espaço quando duvidei que a universidade era para mim. Eu agradeço imensamente a todas as pessoas que já passaram e as que estão na UVE por tornarem o projeto um verdadeiro lar pra mim.  O conselho que daria para todos é que experimentem conhecer alguma extensão, seja a UVE ou qualquer outra. Nós, universitários, passamos em média 5 anos na Universidade e seria trágica a ideia de investi-los unicamente em aulas que são, em sua maioria, expositivas.

[1] NPJ – Local onde estudantes de direito realizam estágio obrigatório.

Texto de Gabriel de Araújo, atual vice-presidente do projeto.

Afinal, os universitários vão ou não vão à escola?

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“Universitários vão à escola”.

Uma das grandes brincadeiras entre os uveanos é a respeito do nome do projeto. “Escola”. Que escola? “Não tem escola, é uma horta”. Universitários vão à horta? Sinto muito acabar com as piadas e com a diversão de inventar outras denominações, mas nós vamos à escola sim. Depois de um semestre de projeto, acredito que esse nome é perfeito. Aliás, se é para fazer alguma mudança, deveríamos adicionar a palavra “melhor” no meio.

A horta de Itapoã é uma escola na qual, ao contrário do que parece, os uveanos vão para aprender, uns com os outros e, principalmente, com as crianças. Um semestre de UVE me ensinou mais do que muito professor, do que muito texto. A primeira lição foi lidar com a frustração. Não, as crianças não vão fazer o que você quer, o que você acha melhor. Elas sabem o que querem e pra nós resta ouvi-las. Horizontalidade, lembra? Segunda lição: na UVE também tem treta, discussão. Aprendi a ouvir e a pedir desculpas. Terceira: você não é o senhor da razão, não vai levar a luz às crianças. Na verdade, tu não sabe de nada. Quarta: que os outros projetos me desculpem, mas as melhores pessoas são da UVE. Não tem como não se divertir, não tem como não fazer amigos ( eu fiz e não largo mais). Quinta: se alguma criança tem algum problema com você, provavelmente, tu tá fazendo alguma coisa errada. Você tá sendo “a tia chata”. Sexta: no final a coisa mais importante é o amor que você dá nas duas horas de projeto, são os abraços e os beijos. A única coisa que as crianças esperam é carinho. E nisso os uveanos são muito bons.

Talvez eu tenha ensinado alguma coisa pra alguém, mas não posso afirmar com convicção. O que tenho certeza é que as crianças me ensinaram mais do que poderiam aprender comigo. Mais do que eu imaginava que aprenderia quando me inscrevi para participar. Em um semestre, elas me mudaram, o projeto me mudou e, hoje, eu sou melhor.

Essa “escola” foi a coisa mais fantástica que me aconteceu nesse ano. O dia de ir para a horta era, de longe, o meu favorito da semana. Claro que não foi tudo perfeito, não foi fácil, mas, no final, eu estou apaixonada e não me vejo saindo tão cedo. Agora só me resta agradecer pela incrível experiência que foi e é participar desse projeto. Obrigada, uveanos ❤. Ano que vem tem mais!

Texto de Joyce Stopa Henning, atual presidente do projeto.

FAQ da (Trans)Formação 2/2015

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Segundo semestre de 2015 chegou carregado – pra UVE e pra muita gente também. Daí que a (Trans)Formação que rola de seis em seis meses teve que sofrer alterações, em função da larga demanda. Mudou data, mudou lugar, mudou horário, mudou atividade… Em meio a esse turbilhão, bastante gente ficou perdida. Por isso, elaboramos esse FAQ pra responder aos questionamentos mais frequentes acerca da nossa (Trans)Formação (tcharam!).

  • Afinal, quais são as informações corretas a respeito do evento?
    A (Trans)Formação vai acontecer na UnB, dias 19 e 20 de setembro (esse final de semana!). A gente vai se encontrar na Faculdade de Direito (FD), às 9h do sábado e às 13h de domingo, e seguir para o prédio ao lado (a FACE), onde serão iniciadas as atividades.
  • Quanto custa?
    O valor de inscrição é de R$10,00 (dez reais). Nele estão inclusos: lanches e 1 almoço.
    OBS.: alunxs que recebem assistência estudantil estão isentxs da taxa de inscrição mediante apresentação de documento que comprove o recebimento da assistência. Ele deverá ser enviado até o dia 10/09 para o e-mail: uve.tesouraria@gmail.com (não aceitaremos depois desta data!).
  • E qualquer pessoa pode participar?
    Qualquer pessoa.
  • É necessário participar para entrar para o projeto?
    É, sim. A (Trans)Formação é o único método de ingresso até agora. Mas calma: se não der esse semestre, tem no próximo (e no seguinte etc.).
  • É preciso ir nos dois dias?
    Nos dois dias.
  • E se eu participar da (Trans)Formação, tenho que entrar no projeto também?
    Não! Na (Trans)Formação da UVE acontecem muitas discussões e atividades que são de bom proveito para quem quiser apenas um final de semana diferente e enriquecedor, ainda que não queira ingressar como extensionista.

Mas, afinal, o que é a (Trans)Formação?
É um final de semana em que os interessados conhecem o projeto (sem exigências ou pré-requisitos, só a vontade e o coração aberto). Todo mundo tem uma ideia do que a UVE é, mas é tão difícil de explicar… O jeito é dar uma espiada pra ver como a dinâmica do projeto funciona. É exatamente pra isso que serve a (Trans)Formação. Nela, temos a oportunidade de, mais próximos da prática, entendermos a teoria de uma extensão tão única como a nossa.

  1. Opa! Quero participar! E agora?
    Agora você se inscreve através desse formulário: https://docs.google.com/forms/d/1-MLbtwLWSNitvk5sm5Widjm3HlKtQRVZMxj-Dna_290/viewform?c=0&w=1 e realiza o pagamento para um dos orientadores listados ou via depósito/transferência bancária para a conta também constante no formulário. Ah, e se quiser confirma presença no evento do Facebook que a gente criou: https://www.facebook.com/events/433798436804634/
  2. Ainda tô confusx. Com quem eu falo?
    Manda inbox pra nossa página no FB (https://www.facebook.com/projetouve) ou email pra: comunicacao.uve@gmail.com

Esperamos ter solucionado ao menos as principais dúvidas sobre a (Trans)Formação que vai rolar esse final de semana. Empolgou? Corre que ainda dá tempo de se inscrever.
Estamos ansiosos pela presença de cada um.

Carinhosamente,
UVE – Universitários Vão à Escola

Carta de leitor

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Reprodução autorizada da redação tipo carta de leitor elaborada por T.

“Caro editor da Folha Online,

Gostaria de parabenizar o jornal pela publicação da matéria sobre a aula de felicidade, que na minha opinião é fundamental para diminuir o número de crianças na idade escolar que sofrem de depressão severa. Meu irmão mais velho, que hoje tem vinte e um anos, foi diagnosticado com depressão, déficit de atenção e alguns transtornos hormonais quando tinha pouco menos que a minha idade, treze. Suas sessões de terapia foram muito dolorosas, e os remédios que davam pra ele não pareceram fazer a ele muito bem. Hoje ele ainda chora muito, e fez tratamento por quase uns cinco, seis anos, e apesar dele tentar esconder tudo sendo o cara mais feliz e exibido dentre seus amigos, eu percebo, porque eu moro na mesma casa que ele. Ele às vezes me dizia que a cabeça dele foi toda bagunçada pelos remédios, quando meu vizinho foi diagnosticado com problemas parecidos ele até falou com a mãe dele pra tomar muito cuidado com os remédios e a terapia, falou que podiam destruir a vida de qualquer pessoa se fossem mal dosados ou mal feitos. Talvez se ele tivesse aulas de felicidade na escola pudesse conversar mais com seus amigos e professores ao invés de receber um diagnóstico e um monte de problema a mais pra resolver.

Esse programa piloto das aulas que será implantado no Reino Unido, a meu ver, ajudará muito as crianças britânicas em depressão, e também deveria ser implantado em outros países, como o Brasil. Eu gosto um pouco das minhas aulas, mas sinto falta de um espaço onde eu possa sorrir e me divertir mais. Tem o recreio, mas é muito pequeno. Meu irmão trabalha num projeto na faculdade, se chama Universitários Vão à Escola, faz ele sorrir bastante, eu vejo as fotos e as crianças e amigos dele riem bastante também. Acho que uma aula de felicidade igual ele faz no projeto tem tudo para dar certo.

Até a próxima edição do jornal,
T. J. B. D.*”

Uma uveana egoísta

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Texto da uveana Julianna Alves

Talvez egoísta não seja a melhor palavra pra começar a descrever a minha relação com a UVE, mas ajuda a definir muita coisa. Ser uveanx é sempre ter tudo a flor da pele, é saber lidar com os mais diversos tipos de problemas e, às vezes, até não saber mais viver só. A experiência que se cobra na universidade se apóia no tripé de ensino, pesquisa e extensão, e disso todo mundo sabe. Mas pra uma pessoa entre o primeiro e o segundo semestre não é tão claro assim.

Eu entrei pra UVE bem no comecinho da graduação (não que isso faça taaanto tempo) e eu tenho certeza que se tivesse entrado depois muita coisa eu teria feito bem diferente. Por ter entrado tão cedo eu tava cheia de expectativas com tudo que dissesse respeito a minha formação nesse novo espaço que era a universidade. Pode ser por isso eu não tenha me livrado dos estereótipos de cada curso e tenha demorado pra ganhar confiança nesse espaço. Entenda o caso: sou estudante de Ciências Sociais (mais precisamente Antropologia) e a grande maioria dos orientadores são do Direito. Eu ouvia alguns colegas de curso com seus comentários nada receptivos sobre os estudantes da FD, o que já me dava motivos suficientes pra não querer colar com eles.

Porém, como todo bom cientista social, eu fui na cara e na coragem desbravar o “exótico”. Lembro de ouvir bem no comecinho da formação que a UVE representava um choque com a realidade. Pra mim esse choque já estava ali na minha frente, antes mesmo do contato com as crianças do Itapoã. Aquelas pessoas que tanto falavam sobre Paulo Freire e um projeto de educação mais horizontal e humana não eram os amigos que talvez eu conquistasse durante o percurso da licenciatura. Mas eles também não eram aquilo que eu ouvia falar, aqueles engravatados de nariz em pé e o mundo ao alcance. Imaginei que conhecer as crianças do Itapoã me fariam chorar.

Mas não fez. Nadinha. Não foi um choque pra mim em nenhum sentido. Foi como se depois de tanto ouvir sobre extensão, educação e autonomia, eu estivesse voltando pra minha casa e tudo estivesse normal. Eu sou o Itapoã também. E eu precisei conhecer a UVE pra me dar conta que toda vez que eu pisava os pés na UnB eu acabava me esquecendo de onde eu vinha. Onde eu moro também tem horta comunitária, tem grupo de teatro, o transito é bagunçado, se tiver greve de ônibus a cidade para, tem uma cidade vizinha que faz tudo parecer um só, tem crianças correndo na rua e tudo o mais. Eu via neles o que eu já vi em mim. Eu via a vontade de fazer a diferença, de conhecer cada vez mais coisas, eu via a falta que faz certas ambições e o quanto a realidade fora é bem cruel. Sempre que eu acabava cobrando algo das crianças eu tava me cobrando o mesmo, porque eu tava cobrando o que me cobraram em algum momento.

E foi não sustentar essa realidade do jeito certo que fez eu me afastar por um tempo. Eu queria muito entender o que tava acontecendo comigo. Demorei um bom tempo pra aceitar que eu tava escondendo de onde eu vinha todos os dias quando chegava cedo e cansada na universidade. Esse tempo longe da UVE me aproximou de tanta gente com a realidade parecida com a minha, aquela indecisão e aquele medo de não estar fazendo o certo ou agradando, que me fez enxergar tudo com uma clareza ímpar. Me fez querer mais do que nunca ver a revolução extensionista, e por que não a educacional. Mas do que isso, me deu ânimo pra questionar tudo que eu acreditava que tava errado, aquele ânimo que bem no comecinho me fez conhecer o que hoje me traz os maiores orgulhos da minha vida universitária.

Esse texto é pra mim também uma volta. A volta as minhas origens que hoje eu enxergo com outros olhos. É a volta as minhas responsabilidades que eu deixei pelo caminho pra acreditar que a caminhada seria mais leve. É voltar pra todos que eu cativei e me cativaram, pra todos os sorrisos. Hoje eu vejo a UVE como meu maior presente, e eu sou adepta ao ditado que diz que presentes nós não recusamos nunca, afinal é uma dádiva. Termino limpando as lágrimas e pedindo milhões de desculpas aqueles que se despediram ao longo do tempo e eu não pude dizer nem um “vá mas não se esqueça da gente” e também aqueles que me perguntavam porque eu sumi. I’m come back!

UVE é…

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Carta de despedida da ex-uveana Gabriela Almeida

Pessoal, antes de mais nada, eu gostaria de agradecer a todos vocês por terem feito parte da minha vida e de meu aprendizado nesses poucos semestres que fiz parte da UVE.

Quanto entrei na UnB, embora tenha, primeiramente, me encantado, vi que não era a universidade que eu sempre tinha sonhado na minha vida. Entretanto, no meu segundo semestre, entrei na UVE e percebi que eu podia fazer minha faculdade se aproximar do que eu realmente queria. Então, só tenho a agradecer a esse projeto mais do que maravilhoso, que para muitos não passa de uma utopia, mas que sabemos que ele constrói e desconstrói a vida de todos que por ele passam, tanto orientadores, quanto orientandos. Obrigada a cada um de vocês, tanto os antigos, quanto os novos.
É muito triste ter que sair da UVE, mas como o Pedro Sousa disse, esse é um ciclo pelo que passamos, e o meu já acabou, infelizmente.
Estive muito ausente semestre passado, e isso me incomodou muito e gostaria de pedir desculpas a todos vocês, porque não consigo mais conciliar as coisas e acredito que tanto pra todos nós, quanto para o projeto, a dedicação é algo mais do que imprescindível, então, por esse motivo, resolvi sair do projeto. A UVE não merece menos do que isso e eu me recuso a dar menos do que isso.
Muito obrigada a todos e a UVE, em especial, por terem mudado tanto minha vida quanto minha visão de mundo. Por terem  me ajudado a crescer.
A UVE não é uma ideologia, ela é realidade, ela não é apenas amor, ela é todos nós, ela é tudo e ao mesmo tempo uma interrogação, pois para que determinar algo que não tem como ser determinado ? É por isso que ela é tão difícil de ser descrita, porque, talvez, não deva ser descrita. O que a UVE é ultrapassa qualquer entendimento e qualquer certeza.
Obrigada novamente por me permitirem participar desse projeto incrível.

Ps: estou saindo da UVE, mas ainda quero participar dos eventos e ajudar no que puder.

Sonhar

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Texto da uveana Isa Neves

Não compreendia a dificuldade das/os uveanas/os para explicar o projeto quando interrogadas/os “O que é a UVE?”, até começar a escrever qualquer coisa sobre. Agora entendo quase que perfeitamente, o que é não estar satisfeita com palavras, pois as considero insuficientes para esclarecer a respeito da minha experiência como nova uveana.

Na tentativa de colocar no papel fico me perguntando insistentemente: O que me faz querer participar da UVE? Pouca coisa costuma me estimular, ou me entusiasmo de forma repentina e logo depois perco o interesse ou me interesso de forma continua e crescente – o que ocorreu depois que tive a feliz decisão de reservar meu final de semana para formação da UVE.

Um projeto que pouco ou mal sei descrever me encoraja tanto, por quê? Reflito e palavras soltas aparecem, mas todas fracas incapazes de alcançar um explicação satisfatória sobre minhas (des)construções diárias, propiciadas, em sua maioria, pela UVE. SONHO é a palavra com maior força e insistência. O sonho tem diferente significação de acordo com as distintas subjetividades. No entanto, sonhos são iguais quando entendidos como fuga da realidade, fantasia, utopia e encantamento. Eu sonho que a educação possa ser o caminho para libertação, sonho com uma produção do saber em consonância com a realidade social, sonho com a valorização das subjetividades, sonho com o fim da hierarquização dos tipos distintos de conhecimento e sonho com o fim da educação bancária.

Como se me sentir livre para sonhar não bastasse, também me sinto pertencida. Calma. Uma nova integrante já sente que faz parte do grupo? Sim, estou atrelada ao universo uveano, lugar onde encontro outras/os como eu: sonhadoras/es que são a vontade viva de colocar em prática todos seus sonhos e utopias.

Sinto que o sonho se torna algo concreto quando sou recebida na horta pelas crianças com sorrisos, abraços, novidades ou sobre o que acharam da atividade passada. Segundo Paulo Freire, ninguém educa ninguém. É esse o processo educacional que se dá entre “tias/os da uve” e as crianças, ninguém detém do conhecimento, todas/os aprendem e ensinam de forma horizontal e simultânea. Na horta não existe índice de rendimento para mensurar o aprendizado e estabelecer menções. Mesmo quando nossa experiência química não ocorre como o planejado não somos reprovadas/os por isso – é como se um passo fosse dado em direção ao futuro sonhado que pensamos ser impossível, que agora passa a ser possível.

É na UVE que minha subjetividade é nutrida por outras semelhantes e estimuladas para algo tão urgente na Univercidade: sonhar. O projeto é, certamente, esse lugar de construção coletiva, onde nossas subjetividades são valorizadas e encorajadas para concretizar nossas utopias. Se a UVE fosse uma matéria eu seria monitora 

Esperança

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Texto da uveana Clara Lacerda

Acredito ser uma apelação inegável ao reducionismo a tentativa de descrever em poucas palavras a complexidade de um projeto que transforma pessoas, assim como a UVE faz. Mais fácil é identificar a origem de todos os frutos no espaço proporcionado pela UVE, a horta. encontramos um microcosmo da realidade, ou quem sabe da realidade que queremos construir, em que as subjetividades possam ser expressas sem o medo da reprovação.

O choque com a horizontalidade me transborda. Um convívio despido das amarras de pré-julgamentos engessados nasce entre cada orientador e criança. Creio que essa convivência e a própria UVE sejam como uma criança, na medida em que se desenvolve, cresce e abarca novas descobertas e experiências. Que justamente por ser criança, reconhece o triunfo do desembaraço da felicidade sobre as futilidades das pequenas agonias. Que justamente por ser criança, é tão sábio. Por crescer em meio a reflexões e individualidades, e porventura acumular um pouquinho de cada subjetividade, se torne livre. Livre para ser quem é e para aceitar os outros como são.

Talvez se o ensino tradicional não sujeitasse alunos e alunas ao papel de receptáculos vazios e fornecesse um espaço de incentivo a trocas, a sociedade não cresceria com ideais maniqueístas do ser, em que a adequação fosse lei. É muito bonito saber que cada quinta, sexta e sábado, tem gente trabalhando para mudar isso.

Independente da idade, nós somos mais que a tentativa de adequar-nos a padrões impostos. A nossa autonomia existe para que possamos ser, viver e sobreviver. Que não a suprimamos, que adultos e crianças possam aprender a desenvolver e aceitá-la. Que a UVE continue desconstruindo os muros da universidade, mostrando que a educação encontra-se muito além dos livros. Que possamos entrar em contato com a nossa própria humanidade, com todas as expressões da diversidade humana inclusas.

A UVE não pode ser descrita com exatidão por ser aberta, por ser fluída e por ser cada um que dela participa, mas creio que um substantivo abstrato expresse como eu me sinto em relação ao projeto: Esperança.

Representatividade

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Texto do Uveano Cairo Coutinho

Todos os sábados quando volto de Itapoã fico pensando em todas as histórias que transitaram pelas atividades realizadas naquele dia. Algumas me fazem lembrar dos meus anos de criança outras são novas e ficarão guardadas na memória. De início essas histórias não me trazem nenhuma reflexão profunda. Penso que a espontaneidade das atividades prende a atenção por completo.

Mas depois na leitura dos relatórios, momentos das reuniões teóricas ou em conversas informais com orientadores\as da Uve aquelas histórias tomam forma de reflexão e me tiram o sono. A história, por exemplo, de uma criança negra que se sente mais confortável e representada quando há orientadoras\es negras\os puxando as atividades do dia. Não vou alongar a história por motivos de exposição.

Sem dúvidas a representatividade é um dos pilares mais importantes nas atividades da Uve. Já que a maioria dos orientadores\as são LGBT (segundo pesquisas de uma criança da Uve) e também há muitos negros\as. Penso que “misturar” crianças e representatividade em um mesmo espaço é a melhor forma de quebrar padrões, seja ele qual for.

O Gustavo (criança do vídeo abaixo) mostra a importância de ter sua história e cultura respeitadas e representadas nos mais variados espaços para sua formação enquanto um jovem cidadão e da sociedade como antirracista.